Por que eu?
Livro I do ciclo Erro 404: Deus não encontrado. Um romance filosófico-satírico sobre dor, reclamação, fé, burocracia da alma e Chancelaria Celestial.
Sobre o livro
em preparação para impressão

Em preparação
Por que eu? é o primeiro livro do ciclo Erro 404: Deus não encontrado. É a história de Vlad, advogado e requerente irritado contra o Universo, que tenta transformar a própria dor numa reclamação corretamente formulada.
Vlad não procura iluminação. Quer explicações, de preferência por escrito, com assinatura, carimbo, número de processo e possibilidade de recurso. Está convencido de que o sofrimento lhe dá o direito de exigir uma resposta e que a vida deveria pelo menos reconhecer uma violação de procedimento.
Mas a Chancelaria Celestial não funciona como departamento de compensações. Não discute, não consola e não prova a existência de Deus. Registra o pedido, esclarece a categoria e mostra aos poucos que o erro pode não estar na ausência de resposta, mas na própria forma de buscar.
O livro conduz da pergunta “por que eu?” para uma pergunta mais desagradável e precisa: quem exatamente está perguntando?
Tema do livro
o processo interior do requerente
O tema principal do livro é o hábito humano de transformar Deus, destino, vida ou Verdade num serviço supremo de apoio. A pessoa sofre, perde, espera, ressente-se, reza, negocia, agradece com uma fatura escondida por dentro — e muitas vezes não percebe que não busca a Verdade, mas a confirmação da sua própria versão da dor.
Por que eu? investiga não a ausência de Deus, mas o erro na forma de se dirigir. A pergunta pode ser real, a dor pode ser real, mas o requerente dentro da pessoa pode ser feito de orgulho, cansaço, papel, medo, antigos roteiros e desejo de compensação.
Não é uma sátira antirreligiosa. O livro não ri de Deus. Ri da tentativa humana de transformar Deus em garantia, contrato, botão de emergência, autoridade de reclamações e ponto oficial de entrega de sentido.
Camadas de sentido
camadas de leitura
- a dor como reclamação contra o Universo
- a Chancelaria Celestial como estado, não como lugar
- oração, expectativa, gratidão e fatura oculta
- a burocracia seca como espelho do pedido espiritual
- a pergunta “por que eu?” e o colapso gradual do velho requerente
- um humor que primeiro faz rir e depois fecha suavemente a porta por dentro
Excerto
Capítulo primeiro — Erro 404
Capítulo primeiro. Erro 404
Naquela noite, Vlad rezava não porque acreditasse.
Isso teria sido bonito demais.
Rezava porque todos os outros meios já tinham acabado. Primeiro acabaram os argumentos razoáveis. Depois o dinheiro. Depois as forças. Depois a capacidade masculina habitual de dizer a si mesmo: “Tudo bem, vamos atravessar isso”, embora por dentro já há muito tempo ninguém atravessasse nada, apenas se sentasse entre escombros fingindo que era uma mudança temporária de móveis.
À meia-noite, o apartamento ficou silencioso.
Não o bom silêncio em que descansam pessoas com a consciência limpa, aluguel pago e nenhuma mensagem nova do banco. Não. Era outro silêncio — pegajoso, vigilante, quase oficial. O dos corredores de hospital, das escadas vazias e das cabeças de pessoas que se mantiveram inteiras por tempo demais e agora já não sabem a quem enviar a conta.
Vlad estava sentado na cozinha.
Diante dele havia uma xícara de chá, há muito esfriada até o estado de reprovação filosófica. Sobre a mesa estavam o telefone, um caderno, uma caneta, algumas contas e uma pequena cruz numa corrente fina. Ele não usava a cruz. Não por princípio. Simplesmente nunca tinha dado certo. Ela ficava numa gaveta junto com pilhas, chaves antigas e outros objetos cujo sentido fora evidente um dia e depois morreu em silêncio.
Hoje Vlad a tirara de lá.
Sem saber por quê.
Talvez para reforçar o pedido.
Ou para mostrar que não viera de mãos vazias. Como numa instituição: aqui está o requerimento, aqui os documentos, aqui as provas, aqui um pequeno objeto religioso confirmando que o requerente tentou cooperar com o sistema.
As pessoas têm uma lógica estranha em momentos de desespero. Enquanto tudo é mais ou menos suportável, falam de livre-arbítrio, maturidade, limites psicológicos e responsabilidade. Mas basta a vida colocar cuidadosamente um joelho sobre o peito, e a pessoa se lembra de repente de todos os antigos protocolos de comunicação: velas, cruzes, orações, promessas, ameaças, negociações, lágrimas, “Senhor, por favor” e outras formas de suporte técnico espiritual.
Vlad olhou para a cruz.
Depois para as contas.
Depois novamente para a cruz.
A cruz parecia mais honesta.
As contas também, mas em outro sentido.
Suspirou e passou a mão pelo rosto. O rosto estava cansado. Não velho, não quebrado, não trágico — simplesmente o rosto de um homem que explicou a si mesmo por tempo demais que tudo ia normalmente e finalmente deixou de acreditar em si.
— Bem — disse ele ao vazio. — Vamos conversar como adultos.
O vazio não objetou.
Era um bom sinal. Ou um mau. Correspondência com o vazio é difícil em geral: ele raramente esclarece sua posição.
Vlad não conhecia nenhuma oração inteira. Ouvira algo na infância. Depois vira coisas em filmes. Depois estivera algumas vezes na igreja, onde todos ao redor executavam gestos com segurança, cujo sentido lhe era tão claro quanto os ajustes de uma máquina industrial em japonês.
Fez o sinal da cruz.
Desajeitadamente.
Rápido demais.
Depois outra vez, mais devagar, para que não parecesse completamente o gesto de um usuário desesperado diante de um computador travado.
— Senhor — disse.
E calou-se.
A palavra se revelou mais pesada do que ele esperava. Não elevada, não luminosa, não solene. Apenas pesada. Como se tivesse chamado pelo nome alguém a quem não escrevia há tempo demais e agora viesse não com amor, mas com uma reclamação.
Deu um sorriso torto.
— Belo começo. Maturidade espiritual imediata. Começando por uma queixa.
Queria dizer algo correto. Algo nobre. Por exemplo: “Seja feita a Tua vontade”. Ou: “Ensina-me a aceitar”. Ou: “Mostra-me o caminho”.
Mas dentro dele se ergueu algo completamente diferente.
Não uma oração.
Mais como um requerimento.
Nem mesmo um requerimento — uma reclamação formal.
E quanto mais permanecia em silêncio, mais claramente entendia: se começasse agora a falar bonito, mentiria desde a primeira palavra. E estava cansado de mentir. Especialmente para o lugar onde, em teoria, tudo já é visível.
— Tentei viver corretamente — disse por fim.
A frase soou patética.
Fez uma careta.
— Não, não assim.
Levantou-se, caminhou pela cozinha, voltou e sentou-se de novo.
— Tentei viver corretamente. Aguentei. Esforcei-me. Fingi que entendia. Até fiz o sinal da cruz.
Olhou para a cruz sobre a mesa.
Ela jazia em silêncio e não ajudava de modo algum.
— E agora expliquem-me, por favor: por que nada disso funciona?
Depois dessas palavras, ficou muito silencioso.
Até a geladeira, que normalmente zumbia com a persistência de um velho profeta, calou-se por alguns segundos. Um carro passou lá fora. Em algum andar acima alguém deixou cair algo pesado e depois disse uma palavra curta não destinada ao uso litúrgico.
Vlad esperou.
Não sabia exatamente o quê.
Uma voz do céu? Luz? Um sinal? Calor interior? Aquela sensação sobre a qual escrevem pessoas que sobreviveram a um encontro com o superior e depois, por algum motivo, vendem um curso por noventa e nove euros?
Nada aconteceu.
Claro.
Deu um sorriso torto.
— Sim. Era o que eu pensava.
Recostou-se na cadeira e sentiu a raiva voltar ao seu lugar legítimo.
— Maravilhoso — disse mais alto. — Então sofrer, por favor. Aguentar, por favor. Fingir que tudo tem sentido, por favor. Mas assim que é preciso uma resposta, silêncio imediato. Muito conveniente.
O vazio novamente não objetou.
— Eu, aliás, não peço milagres — disse Vlad. — Não mais. Só quero entender segundo que lógica tudo isso funciona. Ou pelo menos quem aqui responde pela qualidade do serviço.
Ouviu como aquilo soava e fez uma careta.
Mas já não queria parar.
— Pago esta vida com meu sofrimento. Alguém pode emitir um recibo?
E nesse momento o telefone sobre a mesa vibrou.
Vlad se assustou tão bruscamente que quase derrubou a xícara. A tela acendeu.
Nova notificação.
Remetente não definido.
Assunto: Resposta ao pedido
Durante alguns segundos, Vlad olhou para a tela.
Depois ergueu os olhos para o teto.
— Sério?
O teto era comum. Branco, com uma pequena rachadura perto da lâmpada. Sem anjos. Sem trombetas. Sem brilho. Apenas uma rachadura, como um rio fino que há muito decidira abandonar este apartamento primeiro.
O telefone vibrou de novo.
Uma mensagem apareceu na tela:
O seu pedido foi registrado.
Vlad não se moveu.
Leu a linha uma vez.
Depois uma segunda.
Depois uma terceira, mais devagar, como se a velocidade da leitura pudesse mudar o conteúdo.
Abaixo apareceu outra linha:
Número do pedido: 777-404-13.
Piscou.
— Não.
O telefone aparentemente discordou, porque a mensagem continuou:
Por favor, não crie pedidos duplicados.
Isso não acelerará a verificação dos algoritmos da sua alma.Vlad colocou o telefone sobre a mesa.
Depois pegou de novo.
Depois colocou de novo.
Levantou-se.
Sentou-se.
Olhou para o chá.
O chá, como toda testemunha honesta, não explicou nada.
— Certo — disse Vlad. — Ou isso é um colapso nervoso, ou spam de novo nível.
Pegou o telefone e tocou na notificação.
A tela escureceu por um momento.
Depois ficou branca.
No centro apareceram as palavras:
Erro 404: Deus não encontrado
Abaixo, em letras pequenas:
Possíveis causas:
1. Endereço de pedido incorreto.
2. Solicitação enviada ao destinatário errado.
3. O usuário procura Deus fora da zona de acesso interior.
4. O sujeito solicitante exige uma resposta sem confirmar a própria existência.Vlad sentiu tudo dentro dele ficar frio.
Não assustador.
Precisamente frio.
Isso acontece quando a realidade de repente dá um passo para o lado e você vê que não há parede atrás dela. Apenas uma passagem de serviço mal iluminada com uma placa: “Entrada permitida a estranhos, mas eles se arrependerão”.
Ele colocou lentamente o telefone sobre a mesa.
— O que significa “sem confirmar a própria existência”?
O telefone respondeu imediatamente.
Para continuar, selecione a categoria do pedido:
1. Dor.
2. Injustiça.
3. Por que eu?
4. Por que eu de novo?
5. Entendi tudo, mas dá para ser sem consequências?
6. Outro.Vlad fechou os olhos.
Abriu.
As opções não desapareceram.
Beliscou o próprio braço.
Doeu.
Logo, ou não era sonho, ou era um sonho com boa definição.
— E se eu não quiser escolher?
Uma nova linha apareceu na tela:
A recusa em escolher também será registrada como escolha.
Vlad riu baixinho.
A risada saiu ruim. Seca. Curta. É a risada de pessoas às quais acabaram de informar que sua tragédia pessoal se encaixa perfeitamente num procedimento administrativo geral.
— Magnífico — disse. — Até Deus tem burocracia.
A resposta veio instantaneamente:
A burocracia foi criada pelos humanos.
Nós apenas somos obrigados a usar uma interface que vocês entendem.Vlad parou de rir.
Excerto atual do primeiro capítulo. Escolhido como entrada no livro: aqui aparecem pela primeira vez a reclamação, o pedido registrado e a interface seca da Chancelaria Celestial.
— marca de presença