Pensamento de apoio 0010

A chávena suja

A chávena suja

Correr em círculos não limpa a chávena. Apenas muda quem corre.

Sentido

A cena de conto mostra a tendência humana de confundir movimento com solução. Pode-se mudar de lugar, de papel e de explicação, mas se a pessoa continua a fugir da própria chávena, a questão permanece intocada.

Texto completo

Alice estava sentada à beira da mesa e observava o Chapeleiro voltar a encher uma chávena — embora ninguém ainda tivesse terminado de beber.

— Por que vocês mudam de lugar a cada vez? — perguntou ela. — Afinal, o chá continua sendo o mesmo.

— Chávena suja — explicou o Chapeleiro com dignidade.

— Mas vocês simplesmente fogem da própria chávena em círculo.

— Exatamente — disse o Chapeleiro. — É isso que se chama viver.

A Lebre de Março riu tanto que derrubou a leiteira.

O Rato Silvestre não acordou.

Alice pensou um pouco.

— Mas se vocês mudarem de lugar por tempo suficiente, voltarão à própria chávena. E ela continuará suja.

— Naturalmente — disse o Chapeleiro. — Mas nós, até lá, seremos outros.

Alice abriu a boca.

Fechou.

Abriu de novo.

— Isso não resolve o problema da chávena.

— Não — concordou o Chapeleiro, perfeitamente alegre. — Mas resolve o problema de nós.

A Lebre de Março ergueu um dedo, como se quisesse acrescentar algo importante, mas mudou de ideia e comeu o dedo.

Isto é, o biscoito.

Embora Alice não tivesse certeza.

— Mas isso é... — começou ela.

— Lógico — interrompeu o Chapeleiro. — Absolutamente lógico. É justamente por isso que não funciona.

Alice olhou para a sua chávena.

Depois para a do lado.

— E se eu mudar de lugar — perguntou ela com cuidado — também me tornarei outra?

O Chapeleiro sorriu.

— Não de imediato. Primeiro, deixarás simplesmente de ser aquela que ficou.

Alice ficou muito tempo em silêncio.

— Isto está errado — disse por fim.

— Claro — assentiu o Chapeleiro. — Mas é surpreendentemente conveniente.

A Lebre de Março serviu leite para si no açucareiro e fingiu que era exatamente isso que estava planejado.

O Rato Silvestre murmurou algo dormindo.

Alice olhou mais uma vez para a sua chávena.

O chá estava frio.

A cadeira ao lado estava vazia.

Alice mudou de lugar...

Por que foi escolhido

Este pensamento de apoio foi escolhido porque une absurdo, dor e uma mecânica filosófica exata de fuga. Ele mostra como uma pessoa pode mudar de posição e, ainda assim, não encontrar aquilo que realmente exige atenção.

Nota de pesquisa

Esta é uma livre interpretação autoral do motivo do chá da famosa história "Alice no País das Maravilhas". O episódio original foi alterado e ampliado para fixar o pensamento principal: uma pessoa pode circular, mudar de lugar e de explicações, e ainda assim nunca encontrar a sua própria "chávena suja".

A cena funciona como um pequeno apócrifo da fuga interior. O absurdo não é ornamento, mas método: a falta de sentido do chá torna visível um mecanismo humano comum — deslocar-se para não resolver e chamar isso de vida.

Ashraellen symbol— marca de presença