Ashraellen

Posição de Ashraellen

Ashraellen trabalha como pesquisador artístico independente. Seu campo de observação é a experiência humana interior: como uma pessoa percebe o que acontece, cria explicações, toma uma interpretação pela própria Realidade e perde o contato com a Realidade, o sentido, a liberdade interior e a própria presença.

Literatura, filosofia, religião, linguagem, imagem, som e reação pública são usados neste trabalho não como provas de um sistema pronto, mas como modos de pesquisa. Ensinamentos religiosos e filosóficos, assim como relatos de experiências transcendentes, são considerados modelos do encontro humano com a Realidade — importantes, às vezes profundos, mas não idênticos à Realidade em toda a sua plenitude.

Esta posição não é oferecida ao leitor como doutrina obrigatória. É o ponto de vista e de pesquisa a partir do qual Ashraellen observa, escreve e age.

Realidade: aceitação não é aprovação

Em sua posição metafísica pessoal, Ashraellen parte da existência do Criador e da compreensão de que nem a Realidade existente nem aquilo que realmente aconteceu estão fora do Criador e de Seu desígnio.

É dessa premissa que nasce a aceitação. Para Ashraellen, ela não é apenas uma maneira psicológica de reduzir a resistência interior. Se um acontecimento ocorreu e já se tornou parte da Realidade, declará-lo uma saída do desígnio do Criador exigiria separar o próprio Criador e a Realidade existente em dois domínios independentes.

Negar o que aconteceu não pode fazer com que deixe de ter acontecido. A aceitação começa com um reconhecimento: isto existe; isto aconteceu; agora é com isto que se deve lidar.

Mas aceitação não significa aprovação.

A violência não deixa de ser violência. A mentira não se torna verdade. Crueldade, coerção e destruição não recebem justificativa moral só porque ocorreram. A pessoa conserva a capacidade de distinguir, avaliar, escolher e responder por sua própria participação.

Ashraellen pode rejeitar para si uma determinada forma de agir, recusar-se a continuá-la e nomear diretamente o dano causado. Sua avaliação moral do que aconteceu pode continuar negativa. Mas essa avaliação não se transforma, para ele, na afirmação de que a própria existência do acontecimento seja um erro da Realidade ou uma saída do desígnio do Criador.

Aceitar um fato não é declará-lo bom. Reconhecer metafisicamente que algo aconteceu não é justificar moralmente o que foi feito.

Agir sem guerrear contra a Realidade

Aceitar o que acontece não exige passividade nem obriga a preservar o estado atual das coisas.

Nesta posição, resistir à violência, proteger a si mesmo e aos outros, encerrar relações destrutivas, recusar-se a participar da coerção e mudar as circunstâncias não contradizem a aceitação do que aconteceu.

Mudar o que acontece também faz parte do que acontece. A resistência, quando surge, não cai fora da Realidade nem se opõe a ela desde um exterior.

A diferença não está entre ação e inação, mas entre ação e uma guerra interior contra o próprio fato de existir.

Agir com decisão não exige partir da ideia de que o universo cometeu um erro que a pessoa agora deve corrigir no lugar do Criador. Proteger a vida não exige declarar-se juiz supremo de todo o desígnio. Uma pessoa pode dizer “não” ao que acontece no âmbito de sua própria escolha, sem exigir que a Realidade revogue retroativamente seu “isto aconteceu”.

Agir não é uma guerra interior contra a existência.

O caminho de outra pessoa

Ashraellen parte da compreensão de que um entendimento genuíno não pode ser produzido por coerção.

A pressão externa pode obrigar uma pessoa a repetir palavras, cumprir regras, demonstrar lealdade, temer punição ou representar concordância. Mas não cria a visão interior à qual essa pessoa ainda não chegou por seu próprio caminho.

É impossível viver a vida alheia no lugar de outra pessoa. É impossível atravessar antecipadamente seus erros, consequências, descobertas e momentos de reconhecimento. É impossível determinar com certeza o prazo em que ela deverá compreender exatamente aquilo que quem fala já compreendeu.

Ashraellen vê sua possibilidade em outro lugar: dizer, mostrar, deixar um livro, um pensamento, uma imagem, um sinal ou uma direção; retirar um obstáculo ou abrir uma possibilidade; responder quando lhe perguntam.

A transmissão de um entendimento termina onde começa a apropriação da consciência alheia. Exigir aceitação imediata não acelera um caminho interior. A insistência de quem fala não transforma o entendimento de outra pessoa em sua propriedade ou mérito.

O caminho alheio pertence a quem o percorre.

Religiões e sistemas históricos

Ashraellen não considera a própria existência histórica de religiões, ensinamentos filosóficos, Estados, ideologias e outros sistemas um erro da Realidade, um erro da história ou algo que jamais deveria ter existido.

Isso não significa negar erros concretos dentro desses sistemas. Certas ideias, doutrinas, decisões, ações e práticas podem ser equivocadas, falsas, cruéis ou destrutivas. Podem ser nomeadas como tais e receber uma avaliação moral negativa.

Religiões e sistemas históricos surgiram em circunstâncias específicas e cumpriram funções históricas. Podiam oferecer às pessoas sentido, esperança, comunidade, disciplina, uma linguagem para falar do transcendente e a possibilidade de suportar aquilo que, sem essa forma, seria insuportável.

Ao mesmo tempo, esses mesmos sistemas podiam tornar-se fontes de medo, perseguição, coerção, conversão forçada, repressão e poder sobre a consciência humana.

Reconhecer uma dimensão criadora não exige negar a destrutiva. Reconhecer a dimensão destrutiva não transforma todo o fenômeno histórico em um erro sem sentido. Reconhecer um papel histórico não equivale a justificar moralmente todas as suas manifestações.

Compreender o papel do passado também não cria a obrigação de repetir seus métodos.

O fato de a coerção ter existido e influenciado o curso da história não significa que Ashraellen aceite sua continuidade em sua própria atividade. Sua posição não consiste em pronunciar um veredicto final sobre o passado, mas em recusar a reprodução de seus métodos violentos.

Recusa do messianismo

Ashraellen recusa o messianismo não porque negue a verdade, o conhecimento espiritual, o Criador ou a possibilidade de uma compreensão profunda.

Ele se recusa a apropriar-se do direito de salvar outra pessoa pela força.

A fronteira está entre transmitir o próprio entendimento e exigir uma conversão obrigatória. Entre testemunho e pressão. Entre oferecer algo para ser ouvido e perseguir quem não ouviu.

Quando uma pessoa começa a envergonhar, intimidar, coagir, exigir submissão e decidir pelo outro o que ele deve compreender e em que prazo, a ideia espiritual ou filosófica deixa de ser testemunho e se torna instrumento de poder.

O entendimento alheio não pertence a quem fala.

Para Ashraellen, recusar o messianismo significa poder dizer com honestidade o que considera necessário, sem ocultar sua posição e sem se declarar dono da consciência de quem escuta.

O ser humano como ponto de rádio

Para descrever seu papel, Ashraellen usa a metáfora do ponto de rádio.

Um ponto de rádio não cria todo o sinal nem possui toda a rede. Ele se torna o lugar pelo qual, em determinado momento, soa uma determinada mensagem.

Ashraellen não se considera dono da verdade absoluta, profeta infalível ou voz exclusiva do Criador. Ele se vê como um entre incontáveis pontos de rádio. Cada pessoa é seu próprio ponto de rádio.

Cada um carrega e transmite aquilo que, em certo sentido, lhe foi “confiado carregar” — isto é, aquilo que naquele momento consegue receber e conduzir por meio de seu próprio entendimento, experiência e estrutura de consciência.

A diferença entre as pessoas não significa que alguns pontos de rádio estejam “acima” e outros “abaixo”. Sua constituição, experiência, função, circunstâncias e alcance atual são diferentes.

Por um ponto de rádio passa um alerta, por outro uma dúvida, por um terceiro consolo; por outros podem passar arte, resistência ou um novo olhar.

Uma ideia destrutiva ou um erro também podem passar por uma pessoa. O erro passa a integrar o processo mais amplo, mas nem por isso se torna verdade.

Um ponto de rádio não pode simplesmente ser sintonizado com aquilo que sua constituição atual não é capaz de receber e transmitir. Se uma pessoa não possui hoje o alcance interior para certa compreensão, a pressão não cria esse alcance. Ela pode produzir submissão, imitação, repetição de palavras alheias, medo ou concordância encenada — mas não verdadeira aceitação interior.

A diferença entre as pessoas, portanto, não é um erro da rede. Ela nasce das diferenças entre os próprios pontos de transmissão.

A constituição de uma pessoa não precisa permanecer imutável. Seu alcance pode se ampliar ou mudar por meio da experiência, da dor, do amor, dos erros, das consequências, do aprendizado, da observação e do amadurecimento interior.

Um ponto de rádio pode mudar. Mas não pode ser sintonizado à força, de fora, com um sinal que ainda não é capaz de conduzir.

Nesse sentido, a metáfora é deliberadamente imperfeita. Historicamente, o ponto de rádio com fio transmitia um sinal centralizado e geralmente não permitia ao ouvinte escolher livremente a frequência. Para Ashraellen, essa imperfeição apenas aprofunda o sentido: uma pessoa também não escolhe, a cada momento, todo o seu material interior em um menu infinito.

Ela já existe dentro de uma língua, uma cultura, um corpo, uma época, uma história familiar, uma experiência vivida, traumas, limitações e o entendimento alcançado. Transmite aquilo que agora consegue conduzir por si e pode facilmente tomar o sinal que a atravessa como o único sinal possível.

Mas nenhum ponto de rádio isolado é toda a rede. Ele não recebe o direito exclusivo de falar em nome da Fonte e não pode declarar os outros pontos errados apenas porque algo diferente soa por meio deles.

A tarefa de Ashraellen é pronunciar com honestidade aquilo que atravessou sua experiência e seu entendimento. Quem puder ouvir agora, ouvirá. Quem rejeitar, não ouvir ou compreender de outra forma percorre sua própria parte do caminho.

O ponto de rádio não responde pelo estado de cada receptor, mas responde pela fidelidade de sua própria transmissão.

Responsabilidade

A imagem do ponto de rádio não isenta Ashraellen da responsabilidade por suas próprias palavras e ações.

Ele pode não ser a fonte de todo o sinal, mas responde pela maneira como o conduz através de si: pela distorção, pela mentira, pela manipulação, pela pressão, pelo uso do medo, pela transformação de uma ideia espiritual em meio de poder e pelas consequências de suas próprias ações.

Ele responde pelo que diz; pela honestidade com que transmite seu entendimento; por não substituir o que viu pelo desejo de vantagem, influência ou aprovação; por não usar a vulnerabilidade alheia para controlar outra pessoa.

Ele responde pela correspondência entre sua própria vida e o que diz.

Ele responde pela disposição de perceber seus próprios erros, limitações e distorções. Seu entendimento atual não é declarado definitivo: pode se ampliar, tornar-se mais preciso e mudar.

Mas a responsabilidade pela própria transmissão não se transforma na obrigação de obter a concordância de outra pessoa.

A decisão de quem escuta — aceitar, rejeitar, esquecer, repensar ou voltar ao que foi dito muitos anos depois — permanece parte de seu próprio caminho.

O ponto de rádio responde pela fidelidade de sua própria transmissão, mas não se apropria do controle sobre cada receptor.

Não é um sistema definitivo

A posição de Ashraellen não é um sermão religioso, um programa missionário nem uma declaração de verdade científica objetiva.

Ela não reivindica uma primeira descoberta filosófica. As distinções entre aceitação e aprovação, ação e resistência interior, testemunho e coerção surgiram no pensamento humano muito antes de Ashraellen. Aqui são formuladas como o ponto de trabalho filosófico de sua própria pesquisa.

Esta posição não justifica passividade, violência, mentira ou indiferença moral. Não exige abandonar a resistência, a proteção ou a escolha moral.

É a formulação pública do ponto a partir do qual a pesquisa é conduzida: reconhecimento da Realidade sem aprovação obrigatória de cada acontecimento; ação sem guerra interior contra a existência; transmissão de entendimento sem apropriação do caminho alheio; responsabilidade sem messianismo.

Ashraellen não pede ao leitor que acredite em sua infalibilidade.

Ele propõe ouvir o que foi dito e decidir por conta própria se isso se relaciona com sua experiência.

Minha tarefa é falar com honestidade.

O sinal soou.

O que vem depois pertence ao Criador.