Orgulho e exclusividade
O passado comum pode unir as pessoas. Mas o que acontece quando pertencer-lhe começa a conferir a uns mais direitos do que a outros?
Ashraellen
SEVEN · Livro II · distopia social
Um país que voltou a aprender a orgulhar-se de si próprio. As ruas são limpas, as instituições funcionam e todos parecem serenamente certos de que a ordem estabelecida é a correcta. Mas uma pergunta começa a surgir com insistência: quem tem, de facto, o direito de chamar casa a este país?
Às vezes, a desigualdade não começa com o ódio, mas com a convicção de que os nossos merecem um pouco mais.
Uma visita de estudo perfeitamente normal ao museu da memória nacional. As crianças revisitam uma história que conhecem desde o primeiro ano. Até que uma delas faz uma pergunta inesperada.
Às dez da manhã, as portas abriram-se para a turma do terceiro B.
Vinte e oito crianças avançavam aos pares, como lhes tinham ensinado, com casacos escuros iguais. Cada uma trazia ao pescoço um lenço triangular, metade branco, metade vermelho, cujas pontas passavam por uma presilha dourada com um emblema. Usavam-nos assim desde o primeiro ano, e já ninguém se lembrava de que podia ser de outra maneira. Só a menina no fim da fila tinha o lenço inteiramente branco. «Uma folha em branco», dizia a professora titular, e a menina assentia com orgulho. A metade vermelha tinha de ser merecida.
O guia recebeu-os à entrada da primeira sala. Uniforme impecável, punhos bem engomados e um ligeiro sotaque que passara vinte anos a aperfeiçoar até se tornar quase imperceptível. A palavra «nós» saía-lhe mais alto do que aos outros.
— Houve um tempo em que éramos demasiado educados — disse. — Pedimos desculpa durante tanto tempo que nos esquecemos do motivo.
As crianças riram-se. Gostavam quando os adultos faziam piadas.
Conduziu-as pelas vitrinas: mapas em que o país ocupava três vezes mais espaço do que hoje; estandartes; cartas; o primeiro passaporte do novo modelo. Falava com calor, sem ler apontamentos, tão bem que, no fim da sala, até o segurança tinha deixado de olhar para o relógio.
Na terceira sala brilhava um ecrã enorme. O guia parou a turma diante dele.
— Sabem quem é? — perguntou, embora todos soubessem.
— Aquele que foi o primeiro a dizê-lo em voz alta — responderam as crianças em coro.
— O primeiro a dizê-lo em voz alta — confirmou o guia com um aceno. — Riam-se dele. Depois deixaram de se rir.
A gravação era digital e a cores, mas bastava o formato da imagem para perceber que era antiga: já ninguém filmava daquela maneira. Uma praça gelada, o vapor da respiração, e, acima das cabeças da multidão, dezenas de mãos erguidas a segurar rectângulos planos e brilhantes: naquele tempo as pessoas ainda filmavam tudo por si próprias. Um homem de sobretudo cinzento falava sem tribuna, com o vento a despenteá-lo.
«Dizem-me: não fales tão alto — disse ele. — As pessoas vão ofender-se. Não quero ofender ninguém. Quero que, na nossa própria casa, não nos sintamos hóspedes.
Abrimos as portas. Partilhámos escolas, hospitais, pão. E orgulho-me disso. Mas o pão tem um custo e os hospitais têm filas de espera. Quando é a nossa criança que está na fila, tem o direito de ser a primeira. Isso não é crueldade. É ordem.
Pedimos desculpa durante tanto tempo que nos esquecemos do motivo. Basta. Já não temos de provar nada a ninguém. Que cada pessoa que entre na nossa casa conheça as regras desta casa. Então será bem-vinda».
Nas últimas palavras, o guia mexia os lábios ao mesmo tempo que ele, sem som, como se faz na igreja. Dois rapazes da fila faziam o mesmo. A praça no ecrã aplaudiu sem exuberância, num ritmo uniforme, como se aplaude alguém que disse aquilo que todos pensavam havia muito.
O homem com a esfregona estava junto à parede do fundo. Sabia aquele discurso de cor, até à inspiração entre as frases, e, como sempre, corrigia mentalmente a data na legenda por baixo do ecrã. Já tinha lavado aquela sala quarenta e uma vezes. Nem uma só vez o chão se mantivera limpo para além da visita seguinte.
— Alguma pergunta? — perguntou o guia.
Uma mão ergueu-se a meio da fila. A metade vermelha do lenço de um rapaz tinha escorregado para o lado.
— Porque é que o senhor do sobretudo está no ecrã e o senhor da esfregona não está?
Ninguém teve tempo de o mandar calar. O guia agachou-se para ficar à altura dos olhos do rapaz e respondeu como se responde a uma pergunta que merecia ser feita:
— Porque na Sala da Glória guardamos aquilo de que nos orgulhamos. E ele é a pessoa graças à qual isto está sempre limpo. Damos-lhe valor. Damos mesmo.
O rapaz pensou um pouco e assentiu. A resposta era sincera.
O homem da esfregona baixou os olhos e continuou a lavar o chão.
A acção de PRIDE decorre num país fictício. Ao longo de algumas décadas, a sociedade transformou-se: o orgulho nacional passou a fazer parte da linguagem da política quotidiana e a ordem tornou-se uma das conquistas colectivas mais visíveis. Os serviços públicos funcionam, os espaços comuns estão cuidados e os habitantes habituaram-se à previsibilidade e à disciplina.
Neste mundo, a posição de uma pessoa não depende apenas do seu trabalho, dos seus actos ou dos anos que passou no país. Há uma fronteira quase invisível entre aqueles a quem a pertença é reconhecida por direito e aqueles que têm de provar repetidamente a sua utilidade. Quem chegou para trabalhar e construir ali uma vida continua a ser necessário — mas não necessariamente igual.
O romance interessa-se pelo momento em que o desejo de preservar a dignidade, a memória e a própria casa se transforma na convicção de que tudo o que é bom deve pertencer primeiro aos «nossos».
O respeito pode declarar-se em voz alta. A igualdade tem de ser confirmada pelos actos.
PRIDE não procura uma caricatura de ditadura, mas uma sociedade estável em que a exclusão do «nós» colectivo é explicada com brandura e cortesia: a protecção das crianças, a escassez de recursos, a necessidade de respeitar a ordem das filas e as regras da casa.
A linguagem ocupa aqui um lugar especial. Uns dizem «nós» desde que nasceram. Outros passam anos a aprender a pronunciar essa palavra sem que ninguém ouça nela um estrangeiro. A contradição mais difícil surge quando alguém é tratado com simpatia, mas continua a não ser reconhecido como um dos nossos.
O passado comum pode unir as pessoas. Mas o que acontece quando pertencer-lhe começa a conferir a uns mais direitos do que a outros?
As regras parecem justas até se descobrir que o lugar de alguém na fila depende da sua origem.
É possível trabalhar durante anos para o bem de um país e continuar a ser um estrangeiro indispensável.
A exclusão não precisa de ser grosseira. Por vezes, a recusa é tão educada que se torna difícil contestá-la.
Aquilo que os adultos um dia escolheram pode parecer à geração seguinte a única norma possível.
Quando a história se torna uma fonte de infalibilidade, admitir um erro começa a parecer uma traição.
PRIDE é o segundo livro de SEVEN. Se GREED explora como a promessa de lucro e o medo de perder envolvem as pessoas num sistema criminoso, aqui destaca-se a convicção colectiva de superioridade. A história de pertença decorre dentro de uma ordem social imaginada.
Cada livro pode ser lido de forma autónoma. O projecto literário SEVEN e a sua vertente de investigação são apresentados em páginas próprias.
O livro dirige-se a quem se interessa por distopias em que não é necessária uma catástrofe nas ruas — histórias sobre hábitos quotidianos, instituições, memória pública e dignidade humana. A concepção literária de PRIDE continua aberta a desenvolvimento, discussão editorial e eventual colaboração com editoras.
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